
Assisti ao filme sobre Vinícius, em homenagem aos seus 90. Eu já tinha o CD que, durante algum tempo, foi vendido em conjunto com o DVD. Além de uma seleção sensacional de músicas, em uma das faixas do CD, está “O Haver” – declamada pelo próprio Vinícius.
Confesso que ouvir o CD foi bem menos angustiante que ver imagens de Vinícius bêbado e trocando oito vezes de “esposa”. Não porque eu fique chocada por ver auto-degradação ou porque eu pense que Vinícius é um grande puto-boemio-louco-desvairado, mas porque fiquei pensando na terrível frustração na qual o branco mais preto do Brasil esteve mergulhado durante toda a sua vida. Seus surtos de paixão pelas mulheres eram o combustível para sua produção. Vinícius necessitava do perfume feminino, do sorriso metálico das loiras, das saias curtas das morenas, do bom papo daquela mulher de meia idade ou da idiotice natural da moça de 16 anos. E, em cada nova aventura, Vinícius parecia querer ser arrebatado pelo amor e, amando, chegar a um estágio de nirvana espiritual e perfeição estético-literária. E aí, as duas coisas pareciam se misturar. Para escrever, precisava da inspiração focada no seu afeto descontrolado pelas fêmeas. Daí surgiram os escritos que necessitavam da apreciação do público. E, então, para sustentar o reconhecimento, o poeta corria, loucamente, atrás de suas inspirações: as mulheres (ou o amor?). Nesse ciclo, doses industriais de uísque, cigarrinhos, baseados, cafés, viagens e amigos – tudo isso para que Vinícius vivesse de forma arrebatadora atrás do único objetivo de sua vida: amar e ser amado. E, nesse ponto, o Poetinha sucumbiu.
Por mais paradoxal que seja, o fracasso de Vinícius por não ter amado e por não ter sido amado de forma plena foi responsável pela beleza e intensidade de toda sua obra. Pode parecer absurdo, mas os verdadeiros amantes estão no anonimato e não deixaram nada escrito – a não ser cartas guardadas, em local secreto, pela amada. Eles não têm tempo para pensar o amor porque eles vivem o Amor, com todos os inconvenientes da convivência.
Desprezar Vinícius? Nunca. Certamente, seus sonetos serviram de inspiração para que seu pai se declarasse à sua mãe e, assim, após muita lábia do coroa e muito charme da velha, transformaram-se em dois desconhecidos, amantes autênticos, andantes pelas ruas de Ipanema e casados há 25 anos. E, numa esquina qualquer, uma voz masculina e rouca com sotaque de carioca cantarola, bem baixinho: “Vou te contar/Os olhos já não podem ver/Coisas que só o coração pode entender/Fundamental é mesmo o amor/É impossível ser feliz sozinho…”