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15 de nov. de 2009

Fábio Zanini e Roberto Stuckert Filho [O Balde entrevista]



Ministra do STF, Carmem Lúcia flagrada em troca de emails no julgamento do mensalão. (A reportagem ganhou o prêmio Esso de Jornalismo 2007 - Roberto Stuckert Filho/O Globo)

O Balde entrevista essa semana traz uma análise sobre o trabalho do profissional de comunicação a partir das palestras do jornalista Fábio Zanini, da Folha de S. Paulo, e do fotojornalista Roberto Stuckert Filho, do O Globo. Em uma conversa com alunos de jornalismo do Iesb, os dois falaram sobre ética, profissionalismo e um olhar diferenciado que o profisional de comunicação precisa ter para apurar uma notícia. As mais de três horas foram transformadas em três perguntas que O Balde adaptou e respondeu de acordo com o conteúdo das palestras proferidas.

1) Como deve ser a relação fonte-jornalista?

Com a premissa de ser informante, o jornalista deve ser ator da credibilidade. Deve passar a informação por meio de um código mais apropriado para que hajam menos ruídos possíveis, de acordo com teoria do estudioso de comunicação Roman Jakobson. Para tanto, é necessário que o jornalista tenha com sua fonte um distanciamento, que lhe proporcione capacidade de julgar a informação obtida, sem interferência pessoal ou de opinião. Logo, além de ser uma relação profissional, o jornalista deve ter com a fonte um canal seguro e recíproco. Pois segundo o jornalista da “Folha de S.Paulo” Fábio Zanini, “as fontes vão e voltam. A informação, não”.

2) Como o jornalista deve proceder para conseguir uma matéria diferenciada?


Para sair do lugar comum das matérias, o jornalista deve procurar não se contentar com as informações obtidas. Segundo o fotojornalista de “O Globo” Roberto Stuckert Filho, o ordinário, o cotidiano, todos conseguem. O diferencial é o que o jornalista enxerga a partir do trivial. “Sempre penso: aqui tem mais história”, explica. Portanto, além de ter o cuidado essencial com a linguagem, a estética e o objetivo da matéria, o jornalista precisa de persistência e descontentamento. Como dizia o filósofo moderno René Descartes, “duvide da própria dúvida”.


3) Qual deve ser a postura do profissional de imprensa para evitar equívocos/erros ao escrever uma matéria/reportagem?


O profissional de imprensa precisa de um conjunto de habilidades para evitar equívocos ao escrever uma matéria ou reportagem. Entre elas destacam-se o bom domínio da língua e uso preciso dos estilos de linguagem. Tendo isso, o jornalista deve conhecer a fonte, por meio de uma boa pesquisa, e confirmar toda e qualquer informação obtida. Por exemplo, confirmar pontos de vista conflitantes; ouvir mais de uma versão da notícia. Além de reler a matéria, é interessante que uma terceira pessoa analise o texto e dê uma opinião. Ao final do processo, erros ainda são passíveis de acontecerem, mas com o tempo, bem menos freqüentes.


Agradecimentos à professora Renata Giraldi
Adaptação da entrevista: Alexandre Isomura

1 de nov. de 2009

José Marcelo dos Santos [ O Balde entrevista]


(Clique na imagem para ampliá-la)


Sempre em sala de aula, atento. O jornalista e professor José Marcelo dos Santos apresenta atalhos, novas formas de observação em relação à notícia. Para um estudante de jornalismo isso é essencial, mas não somente para um estudante de jornalismo.

O que é jornalismo?


O jornalismo é um instrumento que a sociedade tem para ser informado sobre o que está errado e reagir. É onde a minoria pode ser representada e ganhar legitimidade. É uma consolidação da cidadania.


Isso ocorre no jornalismo atual?


O jornalismo não é tão livre como gostaríamos. Temos veículos de comunicação nas mãos de lideranças políticas ou empresariais. Além de uma sociedade que se acostumou a não questionar isso.


Como a sociedade pode conscientizar-se disso?


A sociedade vai ser conscientizada pelos meios de comunicação. Porém, os meios de comunicação estão nas mãos de grupos econômicos ou políticos... É um ciclo. Pois se houver conscientização da sociedade, os grupos vão perder o controle sobre ela. Eles não querem isso.


E não há jornalismo independente?


Atualmente, não. Pois não há uma sociedade independente.


Mas e o Pasquim? Foi um exemplo?


O Pasquim foi um grande exemplo de jornalismo independente, mas ele não nasceu disso. Nasceu com um grupo de jornalistas socialmente responsáveis, intelectuais, boêmios... O jornalismo vem perdendo a boemia, cada dia ele vem se transformando mais em negócio. O jornalista é cada vez mais um executivo da notícia. Fizeram um bom jornalismo independente. Mas a sociedade não bancou e teve que acabar.


É otimista em relação ao jornalismo brasileiro?


Gostaria de ser mais, mas eu sou otimista. A gente pode não fazer o melhor, mas fazemos o melhor possível. O jornalismo está emburrecendo, e é verdade. O jornalismo está superficial, e é verdade. Porém, existem algumas manifestações importantes em momentos muito específicos.

por Alexandre Isomura

ilustração por Estevão Mendes

16 de dez. de 2007

Quem chamou essa palhaça? - o balde. entrevista Ana Catarina Franco

“... Faço Artes Cênicas na UnB, estou no oitavo semestre. Eu faço licenciatura, então eu não tenho um grupo e nem estou na área de apresentação mesmo. Mas, vira-e-mexe uma escola me pede alguma coisa e eu tenho algumas esquetes guardadas... Eu dou aula no Maxwell, escola aqui no Guará, mesmo. Ali perto da Feira...”

Para crianças?

Que nada, segundo grau. Tem um monte de aluno meu aí (n’O Sarau). (risos) Muito legal!

O texto das suas esquetes é seu?

Na verdade, eu vou ser bem sincera... Esse texto (da esquete apresentada n’O Sarau) eu copiei. (risos) Eu tirei aquela parte em que a pessoa desaparece, que é bem original... (risos) Na verdade é do palhaço Chuchu, eu assisti uma apresentação dele no CCBB. Foi bem legal.

Desde quando você dá aula lá?

Esse ano, agosto. Mas já dei aula para criança...fiz um filme até com eles. Fiz um filme com os meus alunos de três anos, chamado Nas asas da imaginação. Conta a estória de três crianças que estão brincando de avião... E aí elas estão imaginando que elas estão dentro do avião e estão pilotando e aí uma ganha... E quando vê, essa primeira parte do filme é como se elas estivessem mesmo dentro do avião pilotando... Depois, na verdade, elas estão brincando de avião de papel, é a imaginação delas. É um curta, mas esse eu não pude disponibilizar porque eles são crianças, né? Não posso. Mas eu tenho meus próprios curtas, que alguns amigos me chamam para fazer. Tem o Corra Santiago, que foi gravado este ano em Brasília. É a estória de um cara que tem que entregar um trabalho, ele está atrasado, a mina liga para ele e ele vai correndo Brasília inteira. Ela fala ‘corre!’ e ele sai correndo, literalmente. (risos) Aí ele chega, lembra que o trabalho está em casa e volta correndo para buscar... E quando ele está saindo de casa ela liga e fala: ‘Ah, não, é para amanhã’. (risos) E tem um clipe, que a gente fez uma brincadeira para a Unicesp, chamado Do jeitinho dela, do Tom Zé. Ele está no Youtube. É bem legal, a gente leva bem ao pé da letra... Tem um pouco de cinema trash.(risos)

Sobre a cultura independente, você acha que se pode sobreviver dela?

Em Brasília não. O mercado é pouco, não tem recurso... E para fazer uma coisa bem feita você tem que ter bons materiais, você tem que ter dinheiro, você tem que investir. Então, é complicado. Mas, por outro lado, Brasília tem essa cultura underground, que está fora das galerias, aquela cultura não-canone, não-universitária, que é produzida por escolas mesmo, que é algo mais simples, mais barato, mais prazeroso até de se fazer. Agora, se eu fosse sobreviver disso, dificilmente eu conseguiria. Dificilmente mesmo, porque você vai passar um semestre ensaiando para uma peça ficar mais ou menos boa e você vai ficar um mês em cartaz. Aí você tem que tirar nesse tempo tudo que você gastou em seis meses. É complicado. Talvez no cinema nem tanto, mas no teatro é complicado.

A sua vontade sempre foi dar aula de teatro?

Não! (risos) Eu entrei na UnB com a idéia: eu vou fazer licenciatura porque, na pior das hipóteses, eu vou dar aula. (risos) Eu estou na última opção, mas é a vida. (risos) Mas hoje em dia eu adoro dar aula, tenho meus alunos, me amarro neles, gosto pra caramba.

Você acha que alguns de seus alunos saem das aulas com vontade de atuar profissionalmente?

A gente tem em Brasília hoje um grande problema, que é a obrigatoriedade do ensino de Artes Cênicas. Então, eu tenho que dar aula de Artes Cênicas, todas as escolas tem que ter Artes Cênicas, Visuais e Música... Só que é só teórico. Meu aluno não entra em contato com as práticas artísticas, então dificilmente ele vai gostar. Mas assim, isso é o que a escola deseja, porque eles estão focados para o PAS, para o vestibular. Esse bimestre a gente começou um pouco mais de aula prática – eu pedi para escola e a escola liberou – eles vão se apresentar segunda-feira. Eles estão se amarrando, eu tenho levado por fora, né? Tem um grupo de pesquisa na UnB e aí eu falo: ‘Vamos lá na minha escola?’ e eles vão. A gente faz oficina e tem sido legal. Os alunos têm aprendido até novas palavras mesmo. Eu fui dar uma oficina agora... Foram seis alunos... Eu tenho quatro turmas de 35, 40 alunos e foram só seis no total e a maioria disse que foi porque achava que era palestra, eles não têm nem a noção de que ‘Oficina de Jogos Teatrais’ é algo prático, eles estão muito focados na teoria. Então, para eles, ainda é muito novo, mas eles estão gostando, tem alunos que estão gostando pra caramba.

Fora o incentivo financeiro direto, existe algo que poderia ser feito para estimular a arte e a cultura na cidade?

Com certeza é a educação. Eu pego os meus alunos como exemplo: não vão ao teatro, não se interessam, não buscam... Eu tenho aluno de segundo grau me perguntado o que é esquete, o que é ópera, sabe? Aluno que nunca ouviu falar de Nelson Rodrigues, que só sabe de William Shakespeare, que ainda acha que o teatro começou na época dos jesuítas... Então é muito complicado isso, eu acho que a educação é o grande marco para isso, porque através da educação você tem a chance de entrar em contato com artistas clássicos e contemporâneos e até artistas locais mesmo, da própria escola. Isso dá acesso aos alunos. Você pode apresentar peça de autores famosos e isso não é cobrado, porque você não está profissionalizando, entendeu? Você não está cobrando para ninguém assistir. Isso é legal! A escola é a grande caravana mesmo, entende. É educação mesmo, até para gente se libertar de qualquer outra coisa. Começa tudo na educação. Se as escolas começassem a ter o hábito de, pelo menos uma vez ao ano, incentivar o teatro... Pelo menos uma vez ao ano um grupo de teatro vem à nossa escola... Os alunos talvez tivessem uma mente mais aberta. Agora, por outro lado, eu tenho alunos de nove anos, que é a minha turma de formação de atores... E os meninos sabem tudo! Teve o Cirque du Soleil eles foram, teve O fantasma da ópera em São Paulo eles foram, é um pai de um que está na Rede Globo... então é um outro tipo, entendeu, que é a classe média alta, né? Eles têm mais acesso, com certeza.

Não parece muito difícil... A escola deve ter interesse, os atores também querem mostrar o trabalho...
É. Eu mesma, se a escola falar assim: ‘monta uma peça, a gente cobre um real de cada aluno e você vem apresentar’. Ô, na hora! (risos) Uma turma do governo tem quarenta alunos... um real de cada... dá até para a gente dividir, dar 50% para a escola, como geralmente é. Até a escola lucra com isso, né? Mas aí teria que ser uma peça minha, sem música de ninguém.
A equipe d'o balde. agradece à atriz pela gentileza e paciência.
Entrevista: Pedro de Oliveira
Ilustração: Estevão Mendes

10 de dez. de 2007

Esta noite vai ter Sol - o balde. entrevista Reynaldo Jardim

Poeta, jornalista, contestador. Entrevistamos Reynaldo Jardim, criador do Caderno B do Jornal do Brasil e do jornal-escola O Sol - talvez o último suspiro criativo da imprensa brasileira, que parece caminhar, de mãos-dadas com grandes grupos econômicos e em passos cada vez mais largos, na direção da mesmice e irrelevância. Mais do que uma entrevista, uma aula de subversão saudável, lição de memória cultural e estímulo vivo às iniciativas alternativas, colaborativas e independentes.

“... Essa época (década de 60) era muito explosiva, muito criativa. Bossa Nova, Cinema Novo, os Festivais da Record. Existia uma euforia criativa geral, agora é essa pasmaceira. Mesmo nas faculdades existe uma apatia, os estudantes daquela época eram muito revolucionários. A gente tinha sempre um inimigo declarado para enfrentar, agora é tudo mais escondido.”

Reynaldo Jardim

Como é o Jornalismo praticado hoje em comparação à sua época?

A linguagem é toda padronizada e esterilizada. Porque eles estão repetindo as regras e os conceitos de 50 anos atrás, quando se inventou o lide, sub-lide. Continua tudo do mesmo jeito. No meu tempo lutávamos contra a norma culta, essa linguagem afasta os leitores. Hoje os jornais têm as mesmas notícias e as mesmas chamadas, só muda o logotipo dos jornais.

Falta opinião nos cadernos de cultura?

Esses cadernos hoje viraram cobertura de eventos factuais. Não conheço todos os cadernos hoje, mas eles estão muito focados na literatura. Eu criei o Caderno B, do Jornal do Brasil. Foi o primeiro caderno desse gênero na imprensa. Esse suplemento lançou o movimento Concretista no Brasil, nomes como Rouanet, Belchior, Ferreira Gullar, era uma coisa muito viva.

É possível uma iniciativa como o O Sol hoje?

Hoje teria que se criar uma faculdade de jornalismo que tivesse um jornal diário. Os estudantes saem hoje da faculdade sem saber nada de jornal. Trabalhar com jornal é uma experiência fantástica. N'O Sol todos os repórteres eram estudantes, não só de jornalismo, porque não tinha essa exigência. A iniciativa d'O Sol hoje só seria possível se pegassem uma empresa desprevenida. (risos) O sentido comercial da imprensa hoje é muito violento, o jornal é quase todo de classificados.


O senhor sente falta de jornais assim?

Falta tudo na imprensa, eu nem leio mais jornal. O que salva os jornais são os colunistas, eles escrevem o que quiserem. O resto é tudo igual. A solução pra vocês é o blog, é a única solução que tem e é a coisa mais democrática que existe. A imprensa de hoje não tem opinião, são todos peões. (risos)

Qual é a relação do movimento da Tropicália com o contexto social, político e econômico da época?

A Tropicália fez parte de uma época muito efervescente no campo das transformações, mas não teve engajamento político. O movimento fez a recuperação do brega, de Vicente Celestino. Eles eram um grupo de amigos e o movimento se deveu muito ao espírito contestador do Caetano e do Torquato. Eu acho que é mais uma recuperação de valores marginalizados do que de ruptura. Era, talvez, uma ruptura do status quo com a música dominante que era a Bossa Nova.

Entrevista: Beatriz Leal, Kátia Paiva e Pedro de Oliveira

Fotos: Beatriz Leal

5 de nov. de 2007

Plataforma do samba - o balde. entrevista Seu Enock

Às vezes elegante como um samba cantado a uma Graciosa, outras furioso como um Bicho enjaulado estilhaçando vidro, Enock de Almeida Lima, o seu Enock, é o sambista da rodoviária de Brasília. Boina cinzenta, terno azul-marinho, na mão direita o cigarro torto, na esquerda o reco-reco. Fala de dificuldades, canta às mulheres, agradece ao transcendente. Enock andou com o samba, e o samba para si tomou, eu quero andar com o samba, igual ao Enock andou.

O senhor é de onde?

Eu nasci em Ipameri, Goiás. Vim para cá (Brasília) em 57. Eu, meu pai, minha mãe e meus irmãos. Em 57 morei no Bandeirante, Cidade Livre... Candangolândia, bairro de Candangolândia. Lá eu morei até 65. Em 65 eu mudei para Sobradinho. Estou até hoje em Sobradinho. Moro lá, em Sobrado.

Desde quando o senhor escreve sambas?

Samba tá com seis anos... De seis a sete. Ali na estação rodoviária mesmo, minha inspiração começou a vir através de pessoas. Mulher, né? (risos) Inclusive aí saiu o Maria Linda e o Graciosa. Uma passou pra lá, eu botei o nome de Maria Linda, outra passou pra cá eu botei o nome de Graciosa. Saíram dois sambas, quase em uma hora só. Aí de lá eu vim compondo... O primeiro que eu fiz na minha vida foi o Bicho, né?

Quem é o Bicho?

Eu achei que a vida me transformou num bicho. Porque eu fui separado sem mais, sem menos... A mulher me largou e aí eu me transformei em um bicho. Comecei a beber, entendeu? Eu via um bicho mesmo. Aí saiu esse samba. Já antes eu tentava fazer ele, mas não conseguia porque eu tive um acidente trabalhando. Caí de um prédio, terceiro andar, passei muito tempo com amnésia. Calculadamente mais de quinze anos... De quinze a trinta de amnésia, eu não contei. Aí pela entrevista que eu tive no Correio Braziliense em 2001, me perguntaram sobre o passado e eu fui me recordando das coisas, inclusive me recordei do meu pai, que tava na memória, mas eu não lembrava direito. Aí eu recordei tudo e a música, esse Bicho que eu tinha começado já veio na minha idéia e eu já saí cantando. Já me considerei compositor a partir dessa, a partir dela eu consegui fazer as outras. Aí a inspiração vinha em momentos...Eu na rodoviária engraxando sapato... Por que minha profissão é engraxate agora. Eu sou aposentado, mas preciso ganhar um trocadinho, né? Aí eu tô lá trabalhando e vem a inspiração, de repente. Agora o que tenho a reclamar é que lá em cima, além da inspiração, tem bom freguês, boa gorjeta, bons amigos...

Lá em cima?

É, na parte superior da estação rodoviária, terminal Brasília. Lá eu tinha minhas inspirações momentárias, rapidinho, beleza. E muitos amigos. Depois eu fui descobrir que tinha muitos inimigos também. Por causa da inveja, né? Dessa inveja eu fiquei nervoso... Tinha um homem do vidro lá e aí eu quebrei o vidro. Aí eles me botaram lá para baixo, na parte inferior, onde é frio, onde eu peguei reumatismo, entendeu? Amizade eu não faço, inspiração não vem e o som perturba... Poluição sonora, poluição de fumaça de cigarro, de ônibus, de tudo. Têm aqueles do tiner, os cheiradores de cola. Eu trabalhava com cola e fui até obrigado a parar de trabalhar, porque eles pegavam para cheirar. E outra coisa, aquilo me comprometia porque eles queriam saber onde eu arrumava. Aí eu tive que parar de ser sapateiro. Só estou mesmo engraxando sapato e fazendo samba... Quer dizer, cantando, porque fazendo mesmo, não. A inspiração tá ruim.

Quantos sambas o senhor já fez?

Estou com 15 completos e em andamento tem uns seis. Vem a inspiração dentro do ônibus, porque dentro do ônibus eu canto.
E de quê falam seus sambas?

A minha inspiração vem de pessoas, né? Bicho em forma de pessoa, Jesus me inspira. Mas, mais é mulher, né? (risos) Porque mulher mexe com qualquer sentimento. A minha ex-esposa, ela passa muito amor dentro de mim, que eu posso me inspirar. Eu já fiz uns quatro pra ela, mais ou menos, uns seis ou quatro. E eu vou seguindo. Mas acho que eu continuando, trabalhando lá embaixo, de engraxate ainda, naquela plataforma não tem jeito. Não sei se a inspiração vai continuar.

Quem o senhor gosta de ouvir?

O que eu gosto de ouvir é Martinho da Vila, porque Martinho da Vila já me tirou da fossa, né meu irmão? (risos) E eu acho que eu me inspirei alguma coisa com as músicas dele. Inclusive a Graciosa é uma inspiração. Fala até na Vila Isabel, que é justamente do Martinho.

De todos os sambas que o senhor tem, porque escolheu tocar estes sete hoje (na ocasião em que se apresentou, no Sarau da Primavera)?

Eu escolhi porque têm duas que são recitadas e as outras mais ouvidas... Todo mundo fala que são boas, aí eu escolhi elas. Mais ou menos, quer dizer, não sei se são boas, mas eu acho que elas têm alguma coisa. Quer dizer, para quem eu canto... Eles gostam, né? (risos) Falam que são boas.

Além do ônibus, onde mais o senhor se apresenta?

Eu canto mais dentro do ônibus, na parada de ônibus... No bar da Marizete, na quadra 8 de Sobradinho, em frente à quadra 10. De vez em quando a gente toca lá, tem o pessoal... Tem o Anselmo que tem um grupinho também, um grupo de seresta. De vez em quando eu toco um reco-reco lá. O reco-reco que eu tinha, que me roubaram, foi o reco-reco que o Anselmo me deu. Ele me deu no dia de Natal.
Além do reco-reco, o senhor toca algum outro instrumento?

Toco. Toco surdo, tan-tan. Tudo do samba, percussão quase completa. Por causa do acidente eu não toco bateria de pé, não toco mais cuíca... Eu tocava cuíca, pandeiro eu tocava muito também.

Da equipe d'o balde.
Texto: Pedro de Oliveira
Fotos: Carlos Rasta

21 de jun. de 2007

Ler as figuras - o balde. entrevista Lourenço Mutarelli




Lourenço Mutarelli diz que usava o nanquim de seus desenhos para se defender, como fazem os polvos. Mas em 2002, após nove livros de quadrinhos, o desenhista resolveu trocar o nanquim pelas palavras e lançou seu primeiro romance: O Cheiro do Ralo, que deu vida ao filme de mesmo nome. Depois deste nasceram ainda mais dois: O Natimorto e Jesus Kid. Lourenço Mutarelli dos quadrinhos, da literatura e do cinema – ainda atuou em O Cheiro do Ralo -, também escreve peças de teatro. A voz metálica que sai do viva-voz em entrevista ao balde. fala sobre caos da cidade grande, sobre cultura brasileira e sobre as parcerias com Marçal Aquino e Heitor Dhalia, respectivamente roteirista e diretor de O Cheiro do Ralo.



Por Beatriz Leal

O que influencia mais as suas obras? O contexto político, econômico e social ou a sua individualidade?

Eu acho que a minha individualidade; o aspecto mais psicológico das pessoas em geral. Muito de mim, mas não só de mim. Do que eu observo, do que eu vivencio, de muita observação. Eu estudo muita psiquiatria e algumas outras coisas assim que eu gosto e em geral isso me ajuda muito... para diagnosticar primeiro, para depois criar um personagem.

Que autores tiveram influências nas suas obras, tanto literárias como de quadrinhos?

Literárias pra mim as primeiras grandes influências foram Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis e Augusto dos Anjos. Literárias acho que foram essas minhas experiências fortes. Nos quadrinhos foram Will Eisner e muito do quadrinho argentino Muñoz e Bretcha... algumas pessoas do quadrinho argentino me influenciaram muito.

E das suas outras influências literárias, como Kafka e Dostoiévski, você as detecta nas obras de outros autores contemporâneos, como Marçal Aquino, Patrícia Melo ou Daniel Galera?

Olha, eu tenho um problema grave assim, que há mais de dois anos eu não leio ficção. Eu tenho é o impacto que a gente recebe vivendo em uma cidade como essa (São Paulo), não tem como isso não refletir no nosso trabalho. Por menos que a gente pense ou racionalize essa cidade, inconscientemente isso reflete no nosso trabalho. estudado um assunto e tenho dedicado todo o meu tempo de leitura a esse assunto. Então, desse pessoal mais novo eu só li Marçal. Eu conheço essas pessoas, mas eu nunca li nada deles, por uma questão de administrar meu tempo. Então eu não posso opinar muito sobre várias pessoas. Eu acho que o que o Marçal tem forte, que é quem eu conheço mais pessoalmente, conheço mais o trabalho, é o impacto que a gente recebe vivendo em uma cidade como essa (São Paulo), não tem como isso não refletir no nosso trabalho. Por menos que a gente pense ou racionalize essa cidade, inconscientemente isso reflete no nosso trabalho.


Talvez por isso este realismo, predominantemente o urbano, seja uma das formas literárias mais comuns nas obras de Marçal Aquino e na sua também...

Eu acho que, no Marçal ainda tem o jornalismo policial e tudo, né, que você acaba vendo uma outra faceta que não é assim como eu vejo uma família de policiais, então eu ouvia sempre umas histórias... É mais um mundo cão, é mais por trás dessa maquiagem que tenta vender a cidade, a grande metrópole, que tem um olhar que só atrai o turista mesmo, quem está aqui acaba tendo uma ótica muito diferente.

Mas Brasília é incrível, né, Brasília é incrível. Incrível não de maravilhosa, mas assim, a primeira vez que eu fui aí fiquei muito impressionado. Achei que eu estava em uma cidade universitária, que estava numa USP grande, né? É muito distante. Quando a gente é aqui do caos essa coisa muito ordenada, não sei, soa muito... ela não parece uma coisa natural para mim, então tenho um estranhamento. Mas eu tenho amigos aí, é um lugar em que gosto muito das pessoas, as pessoas acolhem muito bem a gente.

A linguagem noir, de autores como Dashiell Hammett, Raymond Chandler ou até Quentin Tarantino exerce alguma influência na literatura, quadrinhos e cinema contemporâneos no país?

Eu acredito que sim, mesmo que a pessoa não tenha lido nada disso. Isso influenciou tanto a cultura, né? Isso está tanto nos filmes que a gente assistiu que a gente acaba se impregnando. Acho que, depois de um modismo que teve muito forte dos filmes de western, o Marçal tem uma seqüela aí que eu acho bem interessante. Acho que veio isso do romance noir mesmo. Acho que esses autores influenciaram demais a cultura num momento em que ela se massificava pelo rádio e televisão. Isso está muito enraizado na gente.

Há elementos em sua narrativa e em seus desenhos que você considera como fatores de ruptura lingüística e temática?

Eu costumo falar que eu desenho e escrevo não como eu quero, mas como eu consigo. Se eu inovo em alguma é porque eu não consigo fazer direito. Eu não tenho essa pretensão e nem esse pensamento quando estou fazendo alguma coisa. Ela sai mais ou menos do jeito que me agrada e do jeito que ela vai fluindo... Tudo que eu faço é experimental, eu faço como uma experiência. Então eu não estou preocupado se eu vou agradar, se eu vou ser aceito ou não. Eu faço pela experiência. Acho que isso talvez, somado ao fato de eu não conseguir fazer uma coisa mais formal, acho que acaba criando o que pode determinar um estilo, talvez. Mas não existe essa intenção, entende? Ela acaba acontecendo talvez por isso, porque eu me permito experimentar. Tentar fazer do meu jeito, com o que eu tenho nas mãos.

Qual é a importância da interação entre formas de arte diferentes (literatura, cinema, teatro, quadrinhos...) para a cultura de modo geral?
Eu acho que é fundamental pra qualquer... acho que o grande problema dos quadrinhos no Brasil, é que a maioria das pessoas que fazem quadrinhos só bebem os quadrinhos, diretamente, pelo menos. E eu acho fundamental a gente estar aberto ao teatro, ao cinema, literatura, quadrinhos... eu acho importante perceber as diferenças e as semelhanças que existem entre essas formas de comunicação e de expressão.

A mistura tem dado resultados interessantes, né...
Eu acho bastante interessante e acho que é quase... é cada vez mais difícil que não haja essa interação, né? Eu acho que cada vez mais a gente abre os olhos e experimenta e mistura possibilidades, porque cada vez a gente tem mais recursos pra isso.

Quais são as diferenças no diálogo entre autor e espectador dos livros para o cinema para os quadrinhos?

A minha primeira experiência marcante de diferença entre quadrinho e literatura, a única grande diferença é o respeito com o que você é tratado fazendo uma e outra coisa. Existe um abismo de diferença de tratamento que você recebe, mas não pelo leitor imediato. Você não tem um retorno imediato. O meu primeiro retorno imediato que tive foi com a minha primeira peça de teatro, que como minha cara não é conhecida, eu fui algumas vezes assistir a peça e eu podia ver tudo o que funcionava ou não funcionava, eu tinha uma resposta imediata. Isso variava com a platéia, mas eu sempre tinha uma resposta imediata. Eu nunca tinha experimentado esse retorno tão direto. Isso foi muito importante pra mim, foi muito prazeroso vivenciar essa experiência. No cinema você tem isso de uma forma semelhante, embora o filme demore tanto pra ficar pronto que, quando fica pronto, você não agüenta mais ver nem ouvir falar e aí você não acaba vivenciando muito. Eu vivi muito pouco isso, só nos festivais eu senti o público reagindo ao filme, mas aí é um público diferente porque é um público de festival.

Como você enxerga a relação entre produção artística e a indústria de distribuição cultural?

Eu acho que isso depende. No geral, é tudo muito mal distribuído. Acho que acaba, se você persiste fazendo seu trabalho de alguma forma, você vai arrebanhando pessoas que descobrem seu trabalho, e acabam indo atrás, que acabam sendo independentes dessa distribuição. Esse agrupamento acaba ajudando você, por outro lado, a ter uma distribuição um pouco melhor. Mas acho muito mal distribuído, embora existam entidades e experiências que são bastante positivas. Se não fosse o Sesc, e outras iniciativas privadas... por mais que isso seja limitado, acho que isso possibilita a viabilização de muita coisa, indiretamente.

Nina é um filme mais complexo e elaborado. Qual a importância de produções com este tipo de linguagem, na contramão dos temas mais recorrentes, para a cultura brasileira?

Eu entrei no Nina, porque eu achava... isso é culpa do Heitor (Dhalia, diretor), né... é muito a visão do Heitor mesmo. E gostei justamente por isso. Embora eu também ache que outras formas... também é legal você experimentar coisas que estão se repetindo e você tentar dar um pouco da sua cara ou da sua visão, até pra quebrar um pouco essas coisas que se repetem. E o Nina tem toda uma concepção, que eu acho que no fim das contas ele não alcançou, como geralmente não alcança, o objetivo. Mas ele foi uma experiência muito estimulante e muito interessante. Eu só acho que o resultado ficou aquém do que a gente vislumbrava durante o processo. Para mim, pelo menos. Minha opinião pessoal, assim... Quando o filme começou a ser montado, ele começou a ser montado de tantas formas diferentes e por estar muito envolvido eu tinha já uma concepção do que seria. Eu estranho, pra mim causa um estranhamento, o corte final do filme. Eu achei que ele tinha uma outra direção que me agradava mais.

Quem tem acesso somente ao produto final dificilmente percebe isso...

Essa é uma grande vantagem também, porque você recebe aquilo que é pronto e você não tem esse sofrimento todo da expectativa ou dos desvios de curso, né? Eu acho que o Nina para mim tem isso. Foi um filme difícil de realizar, teve muito problema no meio, então, de qualquer forma, eu acho um grande mérito e uma grande coragem ter sido feito, justamente por ser totalmente na contramão do que se fazia.

Como foi fazer parte d’O cheiro do ralo, com as peculiaridades que o filme apresenta em financiamento e produção?

A princípio, eu sempre quis ficar distante, eu não queria me envolver no processo, porque desde o começo eu achava que o mais interessante para mim era ter esse outro olhar, a adaptação mesmo. Mas eu acabei fazendo, tendo que ajudar. Quando o Selton não podia fazer teste com elenco, eu acabei fazendo alguns testes no lugar dele e ele acabou me convidando pra fazer um personagem e foi muito bom pra mim, foi muito divertido, mas eu tentei não interferir em nada. Quem opinava era o Heitor e o Selton. Quando alguém me perguntava eu falava que não sabia de nada, porque eu fiz o livro e isso era o filme e são coisas totalmente diferentes. Mas foi um set totalmente... muito bacana, muito passional, a gente tinha uma relação muito boa, foi uma união muito grande, foi muito divertido, muito prazeroso participar do processo.

Mas, e no que diz respeito ao orçamento, muito mais baixo do que o usual? Você já deve até estar meio cansado desse tipo de pergunta...
(risos) Não. Eu acho que isso talvez tenha propiciado esse clima tão agradável, porque todo mundo que estava lá, estava lá porque gostava do projeto. Ninguém estava lá por dinheiro. Todo mundo estava cedendo seu trabalho, abrindo mão de receber ou trocando isso por uma participação no futuro. Então as pessoas estavam lá por paixão mesmo. E isso refletia muito no ambiente. Ninguém estava lá porque ia ganhar dinheiro, não era essa a idéia. Então, todas as pessoas que entraram ou gostavam do livro ou gostavam do projeto ou gostavam do Selton ou do Heitor. Tinha sempre uma relação afetiva com o que estava sendo feito. Então o fato de ter sido feito da forma que foi feito, acho que é um exemplo de que isso pode acontecer. O Heitor fala isso, que não é o ideal, porque senão chega uma hora em que as pessoas que colocam dinheiro e que se juntam e tal não vão ter mais dinheiro pra fazer nada, mas era a única forma do filme acontecer, então eles optaram por fazer. Mas eu não participei de nada dessa relação de produção ou financeira, eu ouço as histórias mais ou menos como vocês ouvem, meio indiretamente.

Legal mesmo é a idéia de parceria entre as pessoas para realizar um projeto...
Isso eu acho muito legal e acho que isso acabou criando um clima muito favorável. E que, de alguma forma, as pessoas do cinema falam isso e parece que tem uma verdade, esse clima parece que fica impresso no negativo, sabe? É uma coisa que, sei lá, talvez o filme vá bem até por isso também, porque é isso: tava todo mundo junto, se divertindo e afim de fazer. O filme ia sair com duas cópias... no fim saiu com 17, e foi muito bem de público.

Como passou a trabalhar com Heitor Dhalia e qual é a importância de parcerias como estas para a produção cultural do país?
Acho que a importância disso a gente não vai conseguir perceber agora. Se esse filme ficar, perdurar, ou se for uma tendência a possibilitar outros, daqui a um tempo a gente vai saber a importância disso. Eu não sei até que ponto isso é importante ou isso é importante só para as pessoas que estão envolvidas, eu não sei qual a relevância disso. Na minha parceria com o Heitor a ponte foi justamente o livro O Cheiro do Ralo. Ele me procurou pra comprar os direitos, aí ele acabou conhecendo meus quadrinhos, e ele estava na pré-produção do Nina, e me convidou pra fazer os desenhos. Foi uma parceria muito boa, foi muito bom trabalhar com ele, foi uma experiência legal. A gente tem muita identidade, mas ao mesmo tempo a gente tem muita diferença. Acho que a nossa parceria foi isso, não sei se a gente faria uma parceria no futuro, eu acho muito difícil isso acontecer.

E com o Marçal Aquino, como foi?

O Marçal participou do primeiro almoço, quando eu conheci o Heitor, ele indicou o livro para o Heitor ler. Ele é uma pessoa... eu adoro o Marçal, ele é uma pessoa extremamente gentil e divertida que eu gosto muito de encontrar e eu tenho uma afinidade muito grande com ele, uma gratidão imensa por essa generosidade de ele estar... a literatura em geral me recebeu muito bem, muito de braços de abertos, e o Marçal é um grande exemplo disso pra mim, é uma pessoa que gosto muito, muito mesmo, é uma pessoa que eu tenho um afeto muito grande. E ele participou, a gente se encontrou, ele participou do primeiro almoço. Ele fez de certa forma essa ponte e a gente ainda se encontrou algumas vezes os três, e aí depois ele seguiu os dois trabalhando a adaptação. Eu não participei da adaptação.

O que as obras destes artistas, como Marçal Aquino, Beto Brant e Heitor Dhalia, trazem de inédito para a cultura brasileira?
É essa coragem de tentar fazer o que eles querem, o que tem a ver pra eles, não por dinheiro, mas, enfim, por um ideal, mais por aquilo que eles querem fazer, né? E acabam fazendo coisas diferentes, o que é ótimo. Eu acho que esse é um valor pra cultura, é a diversidade, é mostrar que o Brasil não é só o sertão. O Brasil, e muito São Paulo também, é uma mistura de muitas coisas, de muitas culturas.

Então, com essa relação temática – essa história de quebrar um pouco o sertão e trazer mais o urbano – e a relação lingüística que os filmes têm com os livros, o conjunto lingüístico-temático pode trazer uma quebra no que já existe de cinema brasileiro, uma ruptura, no cinema e na literatura?

Eu acho que vem acontecendo e acho que isso acontece mesmo no Cinema, Aspirinas e Urubus, ele mostra a realidade que a gente conhece, mas por uma perspectiva e com uma delicadeza que eu acho muito nova. Acho que mesmo que você fale de coisas que estão sendo ditas, se é um olhar um pouco mais sensível, eu acho que isso traz uma contribuição. A afinidade que existe entre o nosso trabalho e que acaba refletindo nas nossas pessoas, eu, pelo menos, penso que cada uma dessas pessoas fazendo seu trabalho, não pensando "ah, eu vou mostrar isso", mas pensando na sua realidade, no que ela vive, no que ela vê e tenta mostrar, dividir isso... não sei se existe um, pelo menos da minha parte não existe, um dogma ou "ah, eu vou mostrar isso porque isso não está sendo mostrado", não. Eu vou falar isso porque essa é minha língua dentro desse país, então eu acho que é mais ou menos isso. Uma questão de você impor, de certa forma, através do seu trabalho, sua identidade.

Pra quem olha de fora, o que parece é que não há a intenção de se fazer algo necessariamente novo, mas que está sendo feito...

Isso acaba trazendo o novo, gerando o novo. Eu acho que o novo não nasce com a intenção de ser novo. Ele nasce com sinceridade e com experimentação e com pessoas que de repente tentam realizar o seu trabalho contra a corrente e não encontram uma forma de produzir isso, de uma forma fácil ou com parceiros grandes. Então elas se juntam e fazem o seu trabalho, que foge porque as grandes produções visam o que dá certo. Elas vão martelar nessa tecla porque dá certo e nunca vão arriscar. E elas devem começar a arriscar agora, por exemplo, quando surge uma coisa diferente, que dá um resultado, e esse resultado é financeiro, é um resultado de bilheteria ou de uma massa, de atrair uma massa de público, aí eles começam a se pautar nesse tipo de coisa pequena que aponta o caminho e aí eles começam a investir um pouco. Então isso acaba refletindo através de experiências corajosas... Porque, para mim, fazer um livro não custa nada. Mas para se fazer um filme custou... essa parceria é um trabalho muito maior, que por outro lado atinge um número de pessoas multiplicado à potência, né?

Dos filmes roteirizados pelo Marçal Aquino O Cheiro do Ralo parece ter dado mais resultado, né?

O Invasor parece que tinha dado uma bilheteria legal... não tenho certeza se foi 100 mil, ou alguma coisa assim, mas parece que O Invasor teve um, eu nem sei se a venda foi o cinema ou se foi DVD ou VHS. Eu sei que foi um filme que foi muito bem aceito, sei lá, acho que tinha uma novidade, um frescor ali que acabou atraindo, talvez isso indiretamente encoraje outras pessoas a fazerem... então, talvez o primeiro que fez um e não foi tão visto ou tão aceito, encorajou o outro a fazer um outro que vai seguir uma trilha que já começou a ser aberta de alguma forma, mesmo que outros tenham menos visibilidade.

Se é que esses artistas apresentam uma linguagem cultural inédita, como você denominaria essa nova vertente?

(risos) Puxa vida... Eu não tenho a menor idéia. Eu sou muito ruim com conceitos e rótulos assim, eu não sei dizer... Não sei mesmo que nome eu daria.


*Esta entrevista, em formato editado, também foi publicada no jornal Esquina do UniCEUB.


16 de abr. de 2007

Jogo de cena - o balde. entrevista Ricardo Pipo

"Cara, o cinema no Brasil é tecnicamente impecável. Eu acho. Mas, de uma forma geral, eu não gosto muito. As pessoas ficam muito reféns de quem trabalha em televisão, sabe? A produção é da Globo filmes, os diretores são de novela, os atores são de novela, aí vira uma novela. A parte técnica eu até acho muito elaborada, mas tem um ranço da linguagem que o Brasil não abandona..."
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