5 de nov de 2009

Sim. Devemos discutir a comunicação no Brasil [notícias]

Na última semana de outubro, o Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb) foi palco do ciclo de palestras O poder da Blogosfera e o jornalismo do século 21, uma discussão sobre como os novos formatos de mídia, como os blogs e comunidades virtuais, coexistem com os tradicionais grupos de comunicação no Brasil. A origem, funcionalidade e perspectivas desses formatos em rede foram os principais tópicos em pauta nas palestras proferidas por jornalistas como Luis Nassif, Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha. Com um público formado em sua maioria por estudantes, os cinco comunicadores – ainda compareceram Paulo Henrique Amorim e Marco Weissheimer – falaram de ética jornalística, fraudes e desenvolvimento de um novo jornalismo.

Vi o mundo

Após uma palestra apoteótica de Paulo Henrique Amorim na noite anterior, o jornalista Luiz Carlos Azenha dava início à segunda noite do ciclo de palestras. O público era numericamente inferior, mas a discussão não menos calorosa. Cerca de 350 pessoas acompanharam Azenha contar o que o levou ao jornalismo online e o que motiva o teor crítico de seu blog Viomundo, um dos mais acessados do país em sua área.

Com uma vasta experiência como repórter jornalístico investigativo, o palestrante explica o porquê migrou da televisão para a internet. “No início o blog não era uma crítica à Globo. Acontece que alguns assuntos eram mais assuntos que outros, o que me causou certa estranheza”, começa. Cita um fato em que, enquanto cobria as eleições presidenciais de 2006 entre Geraldo Alckmin e Lula, uma matéria sua foi vetada por conter informações que comprometiam o candidato do PSDB. “Eu tinha um dado que 80% das ambulâncias superfaturadas compradas pelo governo de São Paulo foram adquiridas durante o mandato de José Serra (grande aliado do partido tucano)”, diz. “No lugar dessa matéria, foi veiculada uma nota do irmão do Lula fazendo lobby em Brasília”, completa. Após esse fato, Azenha pediu demissão da Rede Globo e foi para Nova Iorque. “Lá pesquisei sobre equipamentos de computador e pensei em começar um blog”, afirma. Segundo o jornalista, a internet abriu caminhos para se fazer um jornalismo crítico, “sem depender de alguém para dizer o que é notícia ou não”.

Azenha apresenta seu blog e diz que pela estrutura simples, poderia trabalhar sozinho. “Mas tenho duas pessoas na equipe”, confirma. Para ele, só assim é possível publicar textos e vídeos que não se vê usualmente na mídia, e com a rapidez necessária. Com uma fala precisa defende que a blogosfera representa uma ruptura, pois junta um número muito grande de pessoas para discutir um jornalismo crítico. “O poder da blogosfera é furar o bloqueio das grandes empresas. Elas [Abril, Rede Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo] não trabalham apenas com informação. Elas usam os noticiários para defender interesses econômicos e políticos”, condena.

Conclui dizendo que não basta ter estrutura, tem que ter solidez, conteúdo. “Todos podem produzir conteúdo. As grandes empresas continuam mandando, mas com as ferramentas da internet, há a possibilidade de criar assuntos com relevância jornalística”, enfatiza.


Blog do Luis Nassif

“É significativo voltar aqui depois de tanto depois”, comenta Luis Nassif ao entrar no auditório do campus sul do Iesb [Nassif concedeu palestra na instituição sobre o Dossiê Veja no ano passado]. “Mas agora o cenário é outro”, diz com percepção jornalística. Assim como Luiz Carlos Azenha, profere uma palestra de mais de duas horas a um público significativo para uma noite de muita chuva na capital federal.

E começa: “Os blogs são fator de contensão para os abusos da mídia”. Segundo o jornalista a blogosfera pode enfrentar de igual para igual a mídia tradicional. Com críticas estudadas sobre o comportamento da mídia em relação à noticiabilidade das matérias apresentadas, Nassif lembra de um caso em que a revista Veja publicou uma matéria sobre o Boimate, um suposto cruzamento genético para tornar a carne de boi temperada com o gosto do tomate. Tudo não passou de um grande engano e exemplo de como a notícia é tratada como produto. “O biólogo da USP [entrevistado] disse que se isso fosse possível, seria o maior caso de evolução depois da teoria de Darwin. O repórter, para emplacar a matéria, escreveu que esse era realmente o maior caso de evolução depois de Darwin. Veja só”, ironiza.

Para Nassif, as reportagens hoje são previamente preparadas, não importando qual seja o resultado da apuração. Em sua opinião falta espaço nos jornais para discutir certos assuntos, como indústria rural e notícias do interior do país. “Esse cenário criou uma geração de jornalistas arrogantes. Com um primarismo político”, critica. Segundo ele, os jornalistas não entendem a transformação política e econômica pela qual o Brasil passa, e é nesse momento que a blogosfera surge. “Antes você comentava com seus vizinhos as notícias do dia. Hoje você acessa a internet e discute com milhões de pessoas. “A internet passou a ter uma soma de conhecimento imbatível”, defende. Assim, Nassif acredita que possa nascer um “novo desenho político, com jornalistas mais críticos e mais em cima da notícia”.

E desse modo acreditamos também.
Participantes do ciclo de palestras O poder da blogosfera e o jornalismo no século 21, organizado pelo Iesb e pela Escola Livre de Jornalismo:

Paulo Henrique Amorim – Conversa Afiada
Luiz Carlos Azenha – Viomundo
Luis Nassif – Blog do Luis Nassif
Rodrigo Vianna – Escrevinhador
Marco Weissheimer – RS Urgente

por Alexandre Isomura

3 comentários:

Arthur disse...

O Iesb vem se destacando entre os cursos de comunicação do DF. Esse ciclo de palestras e debates, junto a muitos outros, são prova. Será que de faculdade propaganda teremos uma faculdade realmente comprometida com um conteúdo pedagógico sério para alunos e comunidade??? To na torcida.

O Balde disse...

Acreditamos que uma faculdade não se faz apenas de direção e corpo docente, os alunos são essenciais para moldar os princípios e decisões na instituição.

Comecemos (em) nós as mudanças.

Equipe O Balde

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