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5 de nov. de 2009

Estilhaços [terreno baldio]



(clique na imagem para ampliá-la)

Tenta freneticamente maquiar a mancha roxa em volta de seu olho direito. Filho da mãe. Como pôde? A mão busca maquinalmente mais e mais do pó corretivo barato (provavelmente vencido) em cima da cômoda de madeira carcomida. O cigarro de mentol pulula em sua boca. Ela tem tanta raiva que mal consegue segurá-lo entre seus lábios mal-pintados de vermelho. A imagem no espelho chega a ser patética: os cabelos escapando do coque desalinhado, as maçãs do rosto excessivamente pintadas com rouge, o cigarro balançando ritmicamente, seu olhar desesperado, as manchas de gordura em sua roupa, o quarto de 5ª categoria à meia-luz da lâmpada única que falha de segundo a segundo. Liga-desliga. Encara-se. Chega. Não mais. Apóia as mãos, que tremem, na cômoda, enquanto sua expressão se morfa lentamente de raiva para desespero; e grita. Lança-se contra o espelho, estilhaçando-o, e, junto com sua própria imagem, se despedaça.


por Mariana Reis