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13 de nov. de 2009

A hora do ônibus [terreno baldio]



Ele desce as escadas e pede um café. Ela que esperava em pé na sala apoiada na mesa que ele terminasse a leitura para poder limpar o banheiro de seu quarto, adia a tarefa e prontamente atende ao pedido. Esperaria um dia inteiro se ele não descesse para pedir o café. Não atrever-se-ia a subir as escadas e questioná-lo.

Ela avisa que o café está pronto. Ele se senta à mesa da cozinha e puxa conversa. Ela trabalha para a família há tanto tempo que sabe de causos que ele, como parte integrante, deveria saber. Calada, porém se incitada à conversa é capaz de falar durante horas sem parar.

Ele bebe o café amargo e apenas a ouve, assenta com a cabeça e sorri dos casos mais engraçados. Até que certo momento, ela solta a frase. “Você é meu patrão. Eu tenho que fazer o que você pedir”. O absurdo anacrônico daquela senhora perto dos 60 chamando o moleque universitário de patrão é como um soco no queixo.

A partir daquele momento, atormentado, não consegue mais achar graça nos causos. O incômodo desígnio que ela lhe concedera tem um peso terrível. Como poderia ele achar que falava de igual para igual. Desejava profundamente não ter pedido para ela fazer o café.

Após meia hora de conversa, ela sem se afetar sobe as escadas e vai limpar o banheiro. Ao terminar, se despede e ruma para a parada. A espera hoje será maior. Seu ônibus já passou...

por Pedro Valadares

26 de nov. de 2007

Construção - Falta a tampa do caixão

"Senhor da alta hermenêutica do Fado/Perlustro o atrium da Morte... É frio o ambiente/E a chuva corta inexoravelmente/O dorso de um sarcófago molhado!"

Augusto dos Anjos - do poema O Sarcófago.

Falta a tampa do caixão

“Reestruturar os serviços funerários e da administração das Necrópoles” é o que prevê o plano plurianual 2004 -2007, documento que registra as metas de governo em certo período, do governo do Distrito Federal (GDF). Porém, a realidade é outra. Na 903 sul, encontra-se Gerência de Necrópoles e Serviços Funerários, órgão ligado à Secretaria de Desenvolvimento Social e Trabalho do Distrito Federal. A gerência realiza o sepultamento, fornece o caixão e faz o translado até o cemitério para pessoas de baixa renda. Porém, a nobre missão de encaminhar pessoas a paz eterna não condiz com a infra-estrutura que se encontra no local.

Em um terreno semi-baldio, uma placa azul desgastada mal sinaliza que ali existe algo em funcionamento. À primeira impressão é difícil acreditar que aquele lugar de terra batida possa abrigar um estabelecimento, ainda mais um órgão ligado ao Governo do Distrito Federal. No prédio, há fios pelas paredes de pintura descascada. O repórter conversou com funcionários da gerência que pediram para não serem identificados. Um deles conta que o administrador do local, João dos Santos Júnior, costuma “não aparecer muito” e que “tem medo de entrevista”. O administrador foi procurado por três vezes pelo repórter para comentar as declarações, mas não foi encontrado.

Outro funcionário reclama que a tranca de uma das portas está quebrada há meses e que toda vez que chove ou venta a porta abre. “Um dia vai molhar um dos computadores”, alerta.

Mais ao fundo do terreno, há uma casa empoeirada e com marcas de infiltrações que serve de depósito para os caixões. Quando perguntado se aquelas são as instalações ideais para o armazenamento do material, o funcionário admite que não. Com as chuvas, a situação piora pois, além de formar uma imensa possa de água na entrada, que dificulta o trânsito, a umidade prejudica as urnas funerárias.

Fernando Viana, presidente do sindicato de Estabelecimentos de Serviços Funerários, explica que as urnas funerárias não devem ficar em contato direto com o chão, pois a umidade prejudica o material. Entretanto, na gerência responsável pelos velórios públicos o que se encontra são caixões no chão cobertos por uma lona preta.

O estabelecimento conta com seis carros que são utilizados para o transporte dos corpos. São três Kombis, uma para uso administrativo, uma picape Toyota e outra Ducato. Com exceção do último, todos os veículos possuem pelo menos doze anos de uso. Quando questionado sobre o desgaste dos carros, um dos funcionários afirma que os problemas atrasam o trabalho.

Diminuição no quadro

Desde 2002, quando o Governo do Distrito Federal terceirizou os cemitérios de Brasília, o Gerência de Necrópoles e Serviços Funerários sofreu corte significativo de funcionários. Antes da terceirização eram 300, hoje são apenas dezoito. Os concursados foram remanejados, já os demais foram despedidos. No mesmo ano, ocorreu a transferência da sede da 916 sul para o inóspito terreno na 903 sul.

Um funcionário afirma que a gerência funciona em sistema de plantão de domingo a domingo. Entretanto, em visita dominical ao órgão, é encontrado apenas um segurança que pede que retorne durante a semana.

Pedro Valadares (por e-mail)

Esta matéria também foi publicada no Jornal Esquina.